23 de jul. de 2010

Copa do Mundo 2014: oportunidade desperdiçada?

Um evento do porte de uma Copa do Mundo se qualifica como ocasião imperdível para a demonstração de aspectos significativos do país que o acolhe. Esses aspectos se alinham desde os resulta­dos que a intensa exposição à mídia inter­nacional pode proporcionar ao turismo a outros que podem eviden­ciar uma capacidade nacional em empre­ender ações complexas. A Copa do Mundo de 2014 pode tornar visível nossa perícia em projeto, implementação e reali­zação.

Ao longo da história, eventos dessa natureza serviram muitas vezes para o esta­be­leci­mento de paradigmas no uso de novas tecnologias na área da comu­nicação. Além disto, por outras vezes serviram para alavancar certo desen­vol­vimento sócio-econô­mico. Dependendo da atenção conferida a variados fatores, o resul­tado dos investimentos econômicos podem se tornar ou não sustentáveis.

Assim, o desenho do símbolo para o evento reflete, ao menos, dois significados. Certamente significa o que está ali para significar, no caso, a edição da Copa do Mundo de 2014 organizada pela FIFA. Mas o símbolo é tam­bém portador de um significado relativo ao próprio ato de desenhar. Ou seja, as características do de­se­nho traduzem, sempre, uma determinada atitude diante do ato de projetar, do ato de se fazer design.

Nessas ocasiões, experimentos podem ser realizados e, através deles, algo mais pode ser comunicado, e signifcar avanços para além dos limites do evento. Por exemplo, nas Olimpíadas de Sydney, Austrália, em 2000, elegeu-se a eco-susten­tabilidade como um de seus atributos. Junto ao estádio onde grande parte das competições de atletismo se deu, as torres de iluminação eram auto-sus­tentáveis. Isto mesmo, independiam de conexão a qualquer outra fonte de energia senão aquela proporcionada pela energia solar. Ali se demonstrou a possibilidade de imple­mentar equipamentos urbanos dotados desse tipo de predicado. Outro exemplo: os sinais adotados pelo Japão, durante as Olimpíadas de 1964 – picto­gramas que superavam a barreira linguística através do uso de ima­gens signifi­cativas acessíveis por qualquer cidadão do planeta – estabe­le­ce­ram um parâ­metro para toda a comunicação a ser implantada em situações as­se­me­lhadas, de aeroportos a hotéis, de grandes espaços congressionais a estádios.

Por outro lado, esses projetos incorporam uma natureza estética, que não se caracteriza somente como criação de beleza. Nessas ocasiões, um dos fatos consolidados é a reiteração de traços de uma imagem nacional. O sinal desenha­do pelo catalão Josep Trias para as Olimpíadas de Barcelona em 1992 ecoa a linguagem de Joan Miró e Pablo Picasso, reafirmando sua origem cultural. O sím­bolo adotado pela Copa do Mundo realizada nos Estados Unidos em 1994 remete diretamente à bandeira americana.

Hoje, para a Copa do Mundo 2014, observa-se o que parece ser um indicativo em oposição a esse tipo de percepção. O símbolo apresentado à comunidade inter­nacional na festa de encer­ramen­to da Copa Sul-Africana, escolhido por um grupo de celebridades, certamente atendeu à sua vontade coletiva em circunstância apa­ren­temente de­sin­formada. À comissão julgadora responsável por tal escolha não se pode, talvez nem se deva, imputar a responsabilidade por sua escolha, seja ela boa ou má, já que é plenamente compreensível que seus integrantes não tenham o hábito de refletir sobre tais assuntos – nunca lhes coube, não lhes cabe essa reflexão.

O símbolo da Copa do Mundo 2014 é um desenho tosco e inacabado. Seu conceito básico – múltiplas mãos que se apoderam da bola, signo máximo da competição, ou da taça, como afirmam seus autores – é passível de questio­na­mento, já que estes não deveriam constituir seu principal significado. É inaca­bado pela inadequação do seu desenho, traçado que mal se equilibra entre o cômico e o irônico, assim como pelos desnecessários detalhes à apreensão da sua forma – pequenas sombras nas mãos chapadas refletem o mais básico dos artifí­cios disponíveis em softwares gráficos de desenho. Da forma das letras, o que dizer? A tradição tipográfica ini­ciada no século 15 indica que a forma da letra sempre é portadora de algum tipo de significado. No símbolo, só revela uma certa inabilidade na escrita, algo infantilizado. Ainda, a falta de uma referência de base não o sustenta verticalmente, mantendo-o em precário equilíbrio.

Ressalte-se aqui que esta não é uma reclamação de ordem corporativa. Não se trata de exigir a presença de designers, e so­mente isto. Se trata, sim, de questio­nar algo mais profundo. Se trata de exigir uma postura consistente de projeto, e, assim por dizer, de design no seu sentido mais am­plificado.

Frente aos problemas veiculados pela mídia durante as últimas semanas quanto aos projetos dos equipamentos necessários à realização do Mundial, constata-se uma grande dificul­dade em lidar com a questão do projeto em toda a sua comple­xidade. Pode-se chegar à conclusão que, juntamente com o símbolo escolhido, tudo será conduzido e orquestrado sem que seja usufruido o grau de oportu­ni­dade oferecido por essa fantástica situa­ção de comuni­cação.

Através do símbolo apresentado, estaremos expondo ao mundo uma tremenda inca­paci­dade de lidar com o projeto e com a criação de símbolos. Isto, no míni­mo, não corresponde à realidade brasileira, cuja produção em design rever­bera, pela qualidade que emana, pelos quatro cantos do planeta. A esta qualidade do design, somam-se a qualidade da engenharia e da arquitetura brasileiras.

Nos defrontamos, evidentemente, com uma séria questão de gestão.

Estamos no limiar, já que todos os prazos se atropelam, de demonstrar ao mundo que ainda somos juvenis, alegres, mas totalmente desprovidos da capacidade racio­nal de projetar o futuro, característica central do design em seu melhor e mais amplo sentido. Nessa perspectiva, infelizmente, o sinal apresentado se ofe­rece como a melhor síntese.

João de Souza Leite,
Designer, professor na ESDI/Uerj e na PUC-Rio,
pelo Conselho de Ética da Associação dos Designers Gráficos – ADG

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